Sísifo e o burnout: porque é que a pedra nunca fica lá em cima
Um mito com três mil anos descreve o burnout melhor do que a maioria dos manuais: não é trabalho pesado, é trabalho que se reinicia. Mas o mito é um espelho — não um destino. Sísifo não tinha nada para negociar; tu tens.
A caixa esvazia-se à segunda; volta a encher-se à terça. O relatório sai; começa o ciclo seguinte. No fim do mês não há nada que possas apontar e chamar terminado — só coisas prestes a recomeçar. Uma noite percebes: não estás cansado porque o trabalho pesa. Estás cansado porque nada fica em baixo.
Essa sensação tem um nome com três mil anos.
O momento do mito
Sísifo, o rei suficientemente astuto para enganar os deuses duas vezes, recebe um castigo à medida da sua inteligência: empurrar uma rocha até ao cimo e vê-la rolar de volta, vez após vez. O castigo não é o peso da rocha — Sísifo é forte. O castigo é o trabalho nunca se completar. Os deuses perceberam algo muito preciso: o que quebra uma pessoa não é a carga, é o esforço cujo sentido é sistematicamente retirado.
Porque é que o burnout nasce exatamente aqui
A tua mente corre uma contabilidade antiquíssima, afinada para emparelhar esforço e retorno: lutar, terminar, recolher. Essa contabilidade depende de um sinal de "feito" — quando chega, o sistema fecha os livros, o descanso começa, o trabalho torna-se história. É esse o núcleo da investigação sobre o burnout: as pessoas não ardem por trabalhar muito, mas quando o equilíbrio entre esforço e recompensa se quebra. Trabalho que nunca acaba nunca regista lucro; o sistema não consegue fechar, e continua a girar de noite.
A parte manhosa do trabalho moderno é tornar a rocha invisível. Sísifo ao menos vê a sua pedra. A tua talvez se chame caixa de entrada, cuidar de alguém, a centésima versão da mesma reunião — ninguém está no cimo da colina a vê-la rolar de volta. És a única testemunha do reinício, e nem tu consegues dar-lhe bem o nome.