Sonhar com ratos e camundongos — não é presságio, é ensaio
A ciência real das criaturas pequenas do seu sonho — simulação de ameaças para as muitas-coisas-pequenas, o nojo como defesa antiga e a pergunta que elas deixam para trás.
Não interpretamos o seu sonho. Lemos o que ele ensaia — e não esquecemos o anterior.
Você acorda com o corre-corre ainda na cabeça. Havia um camundongo, ou um rato — no canto, debaixo do móvel, cruzando o chão em disparada, ou pior: mais de um, mais do que você conseguia contar. Pequenos, rápidos, em toda parte ao mesmo tempo. Nada de enorme aconteceu e, ainda assim, o incômodo rastejante daquilo permanece, e no meio da manhã você está pesquisando o que significava.
O que diz a tradição. Essas criaturas pequenas carregam uma carga antiga e pesada de significado. Em boa parte do Ocidente, ratos significam decadência, doença, pobreza, traição — "os ratos abandonando o navio", a peste à porta. Camundongos, muitas vezes, significaram timidez, ou a pequena preocupação que rói. Mas o quadro não é só escuro: na tradição hindu, o camundongo é a montaria de Ganesha, o removedor de obstáculos, e em algumas culturas esses animais sinalizam fertilidade e abundância pelo puro número. Dependendo de qual leitura alcança você primeiro, o sonho é ameaça, contaminação ou sorte que se multiplica. Não vamos zombar de nada disso — essas foram a primeira tentativa séria da humanidade de levar a noite a sério. Mas foram construídas antes que alguém pudesse observar um cérebro adormecido trabalhando. Agora podemos — e, ao final desta página, você vai saber o que está genuinamente estabelecido aqui, e ver exatamente onde a história geral termina e a sua começa.
O que o seu cérebro estava fazendo de verdade. O incômodo com que você acordou tem duas fontes antigas, e a ciência fala às duas. O principal relato da função do sonhar é a simulação de ameaças — o argumento do neurocientista Antti Revonsuo de que o sonhar ensaia os perigos que moldaram os nossos ancestrais —, mas repare no de ameaça que um rato ou um camundongo é. Não um predador capaz de matar você num só golpe. Uma ameaça pequena, rápida, que se multiplica, que entra, se espalha e é difícil de pegar. É um ensaio diferente do da cobra ou do cachorro que ataca: é o treinamento para o problema pervasivo, não para o súbito. E debaixo do medo senta um segundo sistema — o nojo, que os pesquisadores entendem como uma resposta evoluída de evitação de doenças, afinada ao longo da evolução para nos fazer recuar dos carregadores de contaminação. Ratos e camundongos sentam bem no meio dessa categoria antiga de coisas-que-espalham-podridão. Então o sonho é, muitas vezes, a mente estendendo a mão para uma textura específica de ameaça: não , mas